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Entrevista: Hector Gómez

24 de outubro de 2016

Os ilustradores brasileiros estão entre os melhores do mundo e um nome em especial, foi e continua sendo super importante para que atingíssemos a relevância que temos atualmente, o grande Hector Gómez.

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O trabalho de Hector merece respeito, afinal estar entre os principais nomes do país há tanto tempo não é para qualquer um.

Conversamos com este argentino radicado no país e esse papo rendeu uma entrevista bem legal. Olha só:

 

Dionisio Arte: Com uma história tão extensa e anos de experiência, gostaríamos de saber sobre o seu início artístico. Como foi o seu contato inicial com a arte e os seus primeiros desenhos? Foi na época da sua infância / adolescência? Há alguma relação com a sua família?

Hector Gómez: O desenho é algo que me acompanha desde sempre. Meus pais nunca tiveram que fazer a famosa pergunta: “o que o menino vai ser quando crescer?”

Minha brincadeira favorita era desenhar histórias e a família sempre me deu muita força. Meus primeiros contatos com arte foram através dos quadrinhos. Naquele tempo, a primeira visão que toda criança podia ter era Príncipe Valente ou Tarzan, do Harold Foster, e os trabalhos do José Luis Salinas.

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DA: Quais artistas te inspiravam? Existe algum grupo de pessoas / artistas / movimentos que te que ajudaram a moldar o seu estilo?

Hector Gómez: Meus primeiros contatos (muito a grosso modo) foram com os antigos desenhistas norte-americanos, como Milton Cannif e Frank Robbins, e vários autores argentinos, como Breccia , Carlos Roume, Solano López.

Na sequência, foi publicado o El Eternauta, a graphic novel que me fez querer ser um contador de histórias. Nessa época, passei a estudar na escola panamericana de arte de Buenos Aires e um dos professores era o Hugo Pratt, que é um dos meus maiores ídolos.

No fim dos anos 70, apareceu o Moebius, e todos nós queríamos desenhar como ele. Outros grandes que me influenciaram demais foram Sergio Toppi, Bill Sienkewicz e Barron Storey (todos moram no meu coração).

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DA: Hoje em dia existem aplicações de vários softwares como Maya, Photoshop, Illustrator, ZBrush, Real Flow, entre outros. Qual a importância do lápis e do papel no seu planejamento de ideias? Você utiliza alguma dessas ferramentas? Prefere o digital ou o analógico?

Hector Gómez: Já faz vários anos que só uso papel para rabiscar algumas idéias básicas e, às vezes, pinto algumas telas.

O grosso do trabalho é digital, além dos clássicos, uso bastante o Sketchbook para os traços e o Painter para as cores. Comecei a usar 3dmax quando ainda era em plataforma DOS e tenho estudado Z brush ultimamente (maravilhoso).

A computação gráfica está num estágio incrível de qualidade, já que pode ser igual ou melhor que a arte orgânica, além de abrir novíssimas possibilidades expressivas.

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DA: Entre as agências que você trabalhou ao longo da sua carreira, qual te deu uma base mais encorpada e exigiu mais de você em termos artísticos?

Hector Gómez: Em termos de agência, devo citar a Hipermídia (primeira agência digital), a Ogilvy Interactive e a Tesla. Nelas, fui diretor de criação na área de web.

Foi um momento em que saí da ilustração (entre 1997 e 2004) e caí no mundo online. Uma experiência maravilhosa.

A minha passagem pelo cinema também é importante, já que aprendi muito sobre câmeras, enquadramento e direção com feras como Hector Babenco, João Batista de Andrade e Guilherme de Almeida Prado. Esse conhecimento foi perfeito para os quadrinhos e para fazer os storyboards que faço para publicidade atualmente.

Outra experiência forte foi ter trabalhado para o mercado de comics norte-americano, com suas exigências insanas de prazos, onde fiz Battlestar Galáctica, Buffy, uns especiais de X-Men e um monte de cards (Superman, Vampirella, Star Wars, DC, etc).

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DA: O guache e o airbrush paper são métodos mais tradicionais que trazem resultados estéticos maravilhosos, muito apreciados pelos fãs de HQ’s. Quanto tempo se levava para fazer uma página nessa época? Você chegou a revisitar esses métodos em algum trabalho recente?

Hector Gómez: Fiz muita aerografia até o fim dos anos 90, já que era a modinha da época. O tempo que a gente empregava era absurdamente maior que um trabalho feito em computador e a qualidade menor, claro. Um detalhe: era muito mais caro. O preço de cada folha de papel, o guache e os pincéis (todos importados) era absurdo.

Não tenho nenhuma saudade daquele compressor barulhento e das nuvens de tinta pelo estúdio. Às vezes faço umas telas… têm umas técnicas que ainda não consegui levar para o computador.Hector-Gomez-ilustração-brasil-argentina-quadrinhos-hq-desenho-low-budget-bttf

 

DA: Você fez um trabalho muito bacana ilustrando a HQ “Juba & Lula”. Ao que sabemos, foram publicados dois álbuns: “Operação Super-Homem” e “Uma Aventura na Amazônia”. Fale um pouco desse trabalho. Haviam projetos para mais aventuras serem lançadas?

Hector Gómez: Os álbuns do “Juba e Lula” foram feitos pela editora Nova Fronteira no Rio, iniciativa dos próprios atores.

Foi bem divertido trabalhar em parceria com o Régis Rocha Moreira, o autor do script. O primeiro álbum vendeu muito, já que foi contemporâneo do programa de TV. O projeto foi suspenso quando acabou o seriado.

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DA: Ainda falando sobre “Juba & Lula”, como foi esse processo de imersão e pesquisa de um contexto brasileiro, incluindo a linguagem? Você chegou a viajar para Amazônia?

Hector Gómez: A minha imersão no contexto brasileiro é total, depois de 40 anos aqui, só sobrou o sotaque. A viagem a Amazônia ficou faltando, os orçamentos envolvidos em produção de quadrinhos nunca foram muito generosos.

Somente anos depois que eu acabei passando um tempo na Amazônia, na época do storyboard de “Brincando nos Campos de Senhor”.

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DA: Hoje em dia, temos muitas publicações autorais, alternativas e de tiragens pequenas que são vendidas em feiras específicas. Nestes casos, pode-se colocar todo tipo de ideia, falar e ilustrar o que se bem entender. Você já fez ou tem vontade de publicar algo do tipo? 

Hector Gómez: Tenho gavetas cheias de projetos, mas eles andam meio devagar, já que o trabalho do dia a dia ocupa 110% do tempo.

Como dizia Mafalda: “o urgente não deixa espaço para o importante”. Em caso de publicar, prefiro fazê-lo em meios que garantam um retorno de visibilidade e renda maior, seja em plataformas online, como social comics aqui no Brasil ou Comixology nos EUA… e claro, se algum editor se interessar e pagar para ver.

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DA: Conta um pouco sobre os seus projetos atuais. O que você tem feito?

Hector Gómez: A maior parte do meu trabalho atual é com agências de publicidade, onde faço storyboards de anúncios, narramatics e animatics, em parceria com o estúdio AIMATICS.

Eventualmente, faço ilustrações para editoras e, em paralelo, vou desenvolvendo minha nova graphic novel “Lua de Cobre” (em parceira com Hilton James Kutzcka) e enchendo meu sketchbook de ideias para novos trabalhos independentes, que ponho à venda em sites como o Society 6 e outros.

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DA: Para finalizar, pretende parar um dia, se aposentar? O que irá fazer para acalmar sua fera criativa?

Hector Gómez: O que é aposentadoria?

 

DA: Quer deixar algum recado ou fazer uma pergunta à si mesmo. Esse espaço é seu… fique à vontade.

Devo dizer que tenho o grande orgulho de ter vivido até aqui da minha arte. Foi um trabalho bem difícil, num mercado bem pequeno em relação ao tamanho do país e que ainda não achou o caminho das pedras.

Nesses últimos tempos, tenho visto uma ebulição do tema quadrinhos e arte em geral nas mídias sociais, mas não sei dizer se é algo consistente.

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