Entrevista: Luiz Pardal

17/10/2017

O Brasil é um verdadeiro expoente mundial quando falamos em street art e graffiti. Um dos caras que mais vem ganhando espaço é o paulista Luiz Pardal.

Trocamos uma ideia bem legal com o Pardal que, além de ser um grande grafiteiro, ainda desenvolve um trampo bem legal como diretor de arte do mercado publicitário e artista plástico. Confira a entrevista completa com o cara abaixo:

 

Dionisio Arte: Salve Pardal, conta um pouco da sua história pra gente. Como você começou nesse mundo das artes? Faz quanto tempo que você pinta e como é ser um artista no Brasil?

Luiz Pardal: Salve galera, valeu pelo convite! Eu comecei minha trajetória em 1996 na “pixação”, nos muros da Freguesia do Ó. Desde moleque era fascinado por letras, tipografia, ilustrações e, principalmente, por pássaros. Mas a minha vida na pichação não durou muito e, quando me dei conta, já estava colocando nos muros o que mais gosto de pintar, os pássaros!

Esse amor pelos pássaros deu origem ao meu apelido “Pardal” aos 4 anos de idade, muito antes do graffiti, na época em que eu ainda praticava capoeira. É tradição de todo novo aluno ser batizado com um apelido e, como eu achava que tinha o poder de me comunicar assobiando com qualquer tipo de pássaro (loucuras de criança), o apelido pegou. Logo, nem os amigos próximos me chamavam mais pelo nome, mas apenas por Pardal.

Já o amor pelas letras e pelas artes visuais foi amadurecendo quando eu passei a estudar design gráfico no Senac/SP e artes visuais na Faculdade Paulista de Artes. Junto com todo esse aprendizado, vieram as primeiras oportunidades no mercado publicitário e já estou nele a mais de 15 anos, sendo que hoje sou diretor de arte em uma agência.

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Ser um artista no Brasil tem suas dificuldades. Querendo ou não, o grafitti ainda não tem um reconhecimento completo como movimento artístico pela sociedade, mas, mesmo assim, percebo que hoje é bem mais fácil mostrar a nossa arte nos muros. Digamos que é algo que está “na moda”! Existe uma batalha por reconhecimento, mas o graffiti sempre será grafitti… seja com autorização ou não, com reconhecimento ou não, pois essa é a essência do movimento.

A 20 anos atrás, o cenário era bem diferente. Existia dificuldade até para comprar materiais que eram caros e raros de se encontrar.  Em 1996, por exemplo, além de ser caro, era impossível encontrar a Colorgin com variedade de cores, era uma festa quando conseguia encontrar um roxo.

Nós utilizávamos até latas vencidas, que eram mais baratas e apenas com tons de cinzas, beges e o preto fosco, que era a cor mais usada para pintar rodas de bicicletas. Já hoje, temos uma variedade enorme de materiais, marcas nacionais e importadas especializadas em spray para grafitti.

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DA: Nós acompanhamos o seu trabalho e percebemos que você tem algumas séries e projetos, como o “Liberte o Pássaro que Há em Você” e a “Seres Urbanos”. Conta um pouco mais sobre essas séries.

Pardal: Sim, isso mesmo. A série “Liberte o Pássaro que Há em Você” retrata a busca pelo sentido da fé, da verdade e da esperança em imagens femininas. Nesta série, eu exploro a beleza do traço em esboço, letras do “pixo” e apenas alguns toques de cores. O desenho remete à sutileza dos sentimentos que cada um deve libertar de dentro de si. Existe uma mistura de personagens, letras e pássaros, que é uma característica do meu trabalho.

É possível ver essa experiência na simplicidade do esboço em “preto e branco” feito com spray. Os pássaros estão sempre ao lado de mulheres revestidas de uma certa “áurea”. Nestas personagens ainda existe uma marca em seus olhos que caracteriza as marcas da vida. Afinal, todos temos histórias que marcam nossa caminhada.

 

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Já a série “Seres Urbanos”, começou em 2013, no meu trajeto ao trabalho, onde ilustro diariamente seres anônimos que cruzam o meu caminho no transporte público e nas ruas de São Paulo. Eu continuo ilustrando esses seres anônimos em papel craft e lápis dermatográfico e, aos poucos, estou levando esses personagens aos muros em forma de graffiti. A escolha do papel craft não é por acaso… é um papel popular, papel barato, papel de pão ou papel de pouco valor. É como o povo mais simples é tratado com descaso e desdém nessa sociedade em que vivemos, principalmente no transporte público.

Esses desenhos são feitos bem rapidamente, pois às vezes só tenho o tempo de uma estação para outra para concluir eles.

Uma característica marcante desse trabalho são as expressões. Não tem ninguém sorrindo, todos estão cansados ou procurando refúgio em um cochilo silencioso ou com os olhos fixos em seus smartphones.

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DA: Há quantos anos você já está pintando? Nessa caminhada espalhando seu trampo pelas ruas de São Paulo, como está sendo essa transição que você vem fazendo para as telas, murais corporativos, produtos e etc?

Pardal: Esse ano completa 21 anos que faço graffiti. A transição para as telas foi bem tranquila, os materiais são os mesmos. Uso sempre uma base de látex na tela e o todo o restante é feito no spray. O conceito é o mesmo que aplico nas paredes, mas o contexto é completamente diferente, pois o graffiti feito na rua tem o contato direto com as pessoas que passam por ele, sejam crianças, pessoas em situações rotineiras ou até mesmo as aqueles que estão dentro de carros blindados.

Já os murais corporativos, eu só aceito quando acredito na empresa que está me contratando e quando tenho 100% do controle da criação. Resumindo, gosto de esclarecer que esse é um trabalho autoral e não um trabalho direcionado por um briefing.

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DA: Além de ser esteticamente maravilhoso, é possível identificar mensagens positivas de fé, paz, amor e respeito nos seus trabalhos. Conta um pouco sobre este conceito que você coloca na sua arte.

Pardal: Muito obrigado pelo elogio. Eu realmente procuro trabalhar com essas palavras: fé, esperança, amor, verdade, entre outras. Assim, dessa forma direta ou subliminarmente, insiro mensagens positivas na minha arte… na verdade, acho até que vai além disso, são metas de vida.

Busco atingir estas metas todos os dias, mas nem sempre consigo ter fé, nem sempre consigo ter amor, nem sempre consigo ter esperança… mas estou tentando constantemente. Então, essa vertente do meu trabalho, na verdade, expressa uma busca diária por sentimentos que estão escondidos e aprisionados dentro de mim.

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DA: Um ponto bem interessante sobre as suas telas e murais é que você faz quase tudo em spray. Você pretende pintar mais telas talvez mudando o seu material de trabalho? De repente trabalhar com acrílica ou óleo?

Pardal: Apesar de ter estudado técnicas com tinta óleo e acrílica, eu ainda uso como cor base o látex, tanto no muro como nas telas. Mas, todo o trabalho é feito com spray.

Eu valorizo o uso do spray, ele me chama para a essência. Não sei se foi por conta da dificuldade para comprar latas quando comecei ou pela excitação de quando eu conseguia uma lata de cor exclusiva, como um Verde Hippie da Colorgin. Eu até usava ela como um troféu na minha estante (risos). Mas as latas me lembram o que eu realmente sou.

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DA: Conte um pouco sobre seus projetos futuros e o que gostaria de realizar na área das artes plásticas e do graffiti.

Pardal: Como projeto futuro, eu pretendo amadurecer o projeto “Seres Urbanos” para o grafitti e, quem sabe, a longo prazo, montar uma exposição.

Um projeto que também quero retomar são as oficinas de grafitti que realizei há algum tempo atrás. Pretendo reformulá-las e voltar a ensinar as técnicas para outras pessoas.

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DA: Para finalizar, fala pra gente quais são suas referências. Onde você busca por inspirações? Além de outros artistas, quais são os momentos e ideias que te influenciam na hora de criar?

Pardal: Tive influências de grandes artistas como Os Gêmeos, Will Eisner, Alfons Mucha, entre outros. O que me inspira são, principalmente, os pássaros, o cotidiano, as pessoas que cruzam o meu caminho e a busca pelo sentido da fé.

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