Entrevistas Ilustração

Entrevista: Felipe Vaz

23 de março de 2016

Felipe Vaz é um ilustrador, designer e diretor de arte em uma universidade em Brasília. Batemos um papo bem legal onde ele conta um pouco da sua trajetória, do seu processo criativo, suas influências, entre outras coisas.

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O pernambucano Felipe Vaz nasceu em Recife, mas atualmente reside e trabalha em Brasília. Filho de mãe arquiteta, ele sempre esteve envolvido com o desenho e a ilustração.

Felipe gosta bastante de publicidade, mas o intuito da maioria das propagandas geralmente o incomoda profundamente. Gosta de metal e, além de Brasília e Recife, também já morou em Portugal.

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Estes e outros detalhes da vida e da carreira de Felipe Vaz, você conhecerá agora, numa entrevista descontraída que fizemos com ele. Olha só:

 

Dionísio Arte: Conte um pouco da sua história e em que momento da sua vida você se encontrou com a ilustração. 

Felipe Vaz: Desenho desde pequeno. Lembro de crescer desenhando embaixo da prancheta da minha mãe. Adorava criar histórias de lutas entre ninjas, monstros e super heróis.

Minhas primeiras influências foram Jaspion, Changeman, Lion Man, Tartarugas Ninja e qualquer coisa relacionada aos ninjas, como Chuck Norris e Bruce Lee… a lista é extensa.

Meu primeiro trabalho remunerado foram desenhos dos Cavaleiros do Zodíaco que eu tirava xerox e vendia por R$ 0,50, ainda na época da escola, quando eu tinha uns 8 anos.

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Mais velho, passei a desenhar nas bancas da escola, no caderno, na parede. Fazia muita caricatura da turma.

Já na faculdade, estudei sombra, perspectiva, linhas, pontilhado, serigrafia, litogravura, etc. Porém, acabei deixando o desenho como ferramenta do Design Gráfico e achava que ia ser publicitário e trabalhar com propaganda.

Trabalhei em algumas agências, tentei viver de música e, depois de bater muita cabeça, descobri que trabalhar com ilustração era uma das coisas que eu queria fazer pro resto da vida.

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DA: Como surgiu a série “Malditas”?

Felipe Vaz: Quando mudei de Recife pra Brasília, meu primeiro trabalho foi numa agência digital, onde conheci o Igor Teixeira (Black Heart Tatuaria).

A gente afinou algumas ideias sobre som pesado, crítica política, literatura e planejamos o que viria a se tornar o coletivo “Do Inferno“, com a ideia de vender maldade estampada.

Desenvolvemos alguns produtos e acabou rolando a exposição “Do Inferno”, que aconteceu em Olinda por convite de Raoni Assis, da galeria “A Casa do Cachorro Preto”. A ideia da exposição era levar o público à reflexão sobre a fuga da racionalidade.

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Separei um trecho do conceito da exposição:

O orgulho, a inveja, a ira, a cobiça e a avareza são facetas humanas, não existem entidades sobrenaturais controlando o universo e nossas atitudes. Nós somos os deuses e também somos os demônios.”

A expo foi composta por 3 séries: “Estudos”, “Demônios” e “Bichos Escrotos”.  Rolou uma repercussão legal e resolvemos levá-la para outras cidades.

Como ela foi financiada por meio do Catarse, estamos finalizando a entrega das recompensas que tiveram problemas com o endereço informado. Também aconteceu de não conseguirmos contactar alguns colaboradores, mas diria que 98% das recompensas foram entregues. Agora, vamos iniciar a busca por uma galeria aqui em Brasília.

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Do término da expo à entrega dos prêmios, comecei a série “Pure Evil – Em nome de Deus”, que homenageia nossos queridos políticos da bancada evangélica e simpatizantes.

Só depois de todo esse processo, no carnaval deste ano (2016), com muita indignação e influência dos trabalhos de André Dahmer, Quino, Crumb, Carlos Ruas, Allan Sieber, Galvão Bertazzi, Joan Cornellà e Alberto Montt, resolvi criar uma série de charges ácidas, com a intenção de cutucar mesmo.

Foi aí que nasceu a primeira “Maldita”, intitulada “Festival da Carne”. Ela é fruto do meu cansaço dessa sociedade hipócrita, inerte e asceta. A ignorância me incomoda, inclusive a minha.

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DA: Quais foram suas primeiras referências artísticas? E por falar em referências, elas permanecem as mesmas hoje em dia?

Felipe Vaz: Fora os programas da extinta rede Manchete, gostava muito de Hanna Barbera e Maurício de Souza. Lembro também de admirar os trabalhos de J. Borges, Francisco Brennand, Andy Warhol, Roy Lichtenstein e Escher. Inclusive, acredito que Escher juntamente com Caravaggio mudaram a minha cabeça.

Todas essas referências fazem parte da minha cultura visual até hoje. Não necessariamente os traços, mas sim elementos isolados de cada um, os conceitos.

Não é uma referência direta ou consciente, mas se há algo no meu traço que sempre comentam é a semelhança com a xilogravura. Então poderia citar J. Borges como referência permanente.

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DA: Fale um pouco do seu processo criativo.

Felipe Vaz: Basicamente eu estudo um determinado tema das formas que estão disponíveis. Vejo filmes e vídeos, ouço músicas que remetam ao tema e ao sentimento que o ele traz, leio textos ,e dependendo do nível de aprofundamento necessário, leio livros.

Depois, passo um tempo ocioso, observando e refletindo. Passo a enxergar o mundo a partir da perspectiva do tema. Vão surgindo ideias e, quando me ocorre algo original, começo a desenhar.

Geralmente, a ilustração é a parte mais rápida do meu processo criativo.

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DA: Há algum ilustrador / artista que você admira atualmente? E sobre obras, há algum trabalho recente no qual você se inspira? 

Felipe Vaz: A internet é um mundo maravilhoso de referências infinitas. Chega a ser frustrante encontrar tantos trabalhos tão interessantes e não existir a possibilidade de conhecer um quinto do que se produz.

São muitos os artistas que admiro e a cada dia encontro um novo. Pra citar alguns: Márcio Moreno, Hugo Silva, Raone Ferreira, Dexter, Caramurú Baumgartner, Sandro Freitas, Kin Noise, Marcus Zerma, Bicicleta Sem Freio, e por aí vai… Não dá pra lembrar todo mundo, mas esses nomes são só a galera do Brasil.

Emtre os trabalhos recentes que me inspiram, além dos artistas que eu já citei, posso incluir alguns gringos como Adrian Baxter, Richey Beckett, James Jirat, Alex Solis e Broken Fingaz.

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DA: Suas ilustrações e tiras não são para qualquer um. Qual a crítica mais conservadora que você lembra ter recebido?

Felipe Vaz: Eu tinha essa expectativa de ter críticas mais ferozes, mas os trabalhos tem sido bem aceitos. Nem sempre há muitos comentários, mas procuro amarrar bem as ideias e não deixar brechas à críticas rasas.

Posso citar desabafos sinceros do tipo: “Gostei do traço, o trabalho tá bem feito, mas não gostei da crítica.”, especificamente sobre o Malditas “O Fiscal”.

Fiquei impressionado ao constatar que tem mais pessoas dispostas a defender o Bolsonaro do que a Instituição Católica (em Malditas “Mártir”).

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DA: Como você enxerga o atual cenário da arte no Brasil?

Felipe Vaz: Vejo um aumento absurdo no número de artistas fodas surgindo.

A internet é uma ferramenta sensacional pra acompanhar o desenvolvimento de novos destaques. Tanto a arte como o design estão sendo um pouco mais valorizadas.

Tenho visto muito trabalho tipográfico e murais, mas o processo ainda é lento e continua difícil viver de arte. Ainda existe a ideia de que é um dom, “de que você nasceu com um talento, é só um desenho rapidinho.”

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DA: Felipe, você tem algum novo projeto em vista? Como seria?

Felipe Vaz: O projeto é continuar o Malditas e realizar a exposição “Do Inferno” em Brasília, Curitiba e São Paulo.

Antes disso, vou trabalhar num mural com o Kleverson Mariano, artista e brother de São Paulo, que estará por aqui em breve pra misturar uns traços. Este provavelmente será o primeiro mural de uma série.

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DA: O que você pensa sobre o seu futuro como artista?

Felipe Vaz: O crescimento deve ser constante, pois se parar de pedalar, a bicicleta tomba.

Apesar de ter no nanquim uma ferramenta constante, sempre tento aprender técnicas e utilizar materiais novos. Não sei onde estarei futuramente, mas em todos os casos me vejo fora do Brasil, quem sabe na Holanda, Portugal ou Austrália.

Sinto a necessidade de viver em um lugar que valorize mais a arte. Gostaria de viajar sempre e poder trabalhar com pessoas diferentes em países diferentes. Ter a oportunidade de fazer uma arte pro Slayer, pro Mastodon, pro Sepultura… dividir uma parede ou uma folha com o Alex Solis, o Nychos, o Mcbess. Gosto de desafios!

Não vejo nada disso como muito distante, sei que não está aqui do lado, mas há possibilidades.

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É isso galera… esperamos que vocês tenham curtido esse bate papo com o Felipe Vaz. O Cara possui um trabalho insano e ainda por cima é muito sangue bom. Pra fechar, confira mais algumas obras dele aqui antes de encerrar o post.

Ah, sigam o Felipe no Facebook, Instagram e no Behance.

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