Entrevista: Will Barcellos

16/02/2016

O artista carioca Will Barcellos é um fenômeno do pontilhismo e um dos principais nomes da técnica aqui no Brasil. Conheça quais são suas influências, seu processo criativo, etc.

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Além de ser um grande artista, Will também é um cara muito gente boa. Batemos um papo bem legal numa entrevista em que ele nos contou suas inspirações, como começou a carreira, sua visão sobre o mercado brasileiro, etc.

Confira a conversa abaixo e conheça mais sobre esse gênio brasileiro do pontilhismo.

 

1 – Will, como você enxerga a arte? O que é arte para você?

Will: A arte pra mim é como respirar, não sei como viver sem, sempre foi assim. Vejo a arte como meu universo paralelo, a enxergo em tudo à minha volta, nas paisagens, na velhinha sentada no portão, até nos gestos das pessoas…

Pesquisar e conhecer o trabalho de outros artistas é meu hobbie preferido, algo que me diverte, encanta e inspira.

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2 – Conte um pouco da sua história e como ela se encontra com a arte que você faz.  

Will: Eu sou um cara simples e de origem muito pobre, inclusive morei em uma favela do Rio até os 9 anos.

Acredito que meu gosto pela arte vem desde a barriga da minha mãe. Sempre fui aquele moleque criativo, diferente, e que rabiscava tudo que podia. Bastava ter papel nas mãos para construir robôs, cata-ventos, barquinhos ou qualquer coisa que minha imaginação pudesse produzir.

Era o rei da bagunça em casa e, ao mesmo tempo, o menino que se divertia com pouco, uma folha de caderno e um lápis. Aos 14 anos, visitando uma tia no hospital, conheci um amigo dela que era professor na SBBA (Sociedade Brasileira de Belas Artes) e, na semana seguinte, eu já estava começando a estudar lá, onde permaneci por alguns anos e pude conhecer diversas formas e técnicas de desenho e pintura.

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3 – Quais foram suas primeiras referências? Elas permanecem como as suas principais referências?

Will: No início, como era muito garoto, me aprofundava mais na técnica do que na teoria e na história da arte… Um fato engraçado sobre minha história com a arte é que, antes mesmo de descobrir quem eram os artistas que hoje uso como referência e inspiração, eu já havia pego amor e gosto estético pela técnica que utilizo até hoje.

Por exemplo: eu sempre amei a complexidade da perspectiva e a ilusão de ótica, porém só conheci Escher muito tempo depois. Meu apreço pelos detalhes das pinturas e pela delicadeza da anatomia dos corpos pintados em art nouveau veio antes de eu ser apresentado ao trabalho de Muchà. E o mesmo aconteceu com o pontilhismo, minha dedicação e atenção à técnica vieram bem antes de eu conhecer os grandes nomes do movimento.

 

4 – Dentre as milhares de técnicas que existem, por que você escolheu trabalhar com o pontilhismo? Tem algum significado especial para você? 

Will: Conheci o pontilhismo quando tinha 15 anos. Tinha ido visitar uma exposição feita por alunos na SBBA quando me deparei com um quadro que ilustrava uma cena de uma mulher deitada sobre pedras com o mar em plano de fundo. Só consegui identificar a técnica de pintura quando me aproximei da obra, e fui surpreendido pelos milhares de pontos.

Foi o momento mais intenso do meu contato com a arte e, ouso dizer que, foi um divisor de águas. Voltei à exposição várias vezes para rever o quadro. Descobri uma paixão, mas sabia que ainda não estava pronto para trabalhar com ela, eu precisava me preparar mais.

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5 – Sabemos que as técnicas e dimensões das suas obras exigem um bom tempo de trabalho, pois são bem complexas e com vários detalhes. Como você organiza seu tempo? Você tem alguma atividade além da arte? 

Will: Acho que só me organizo por que sou compulsivo pelo que faço. Eu trabalho como gestor de uma empresa e, por isso, passo dez horas do meu dia fora de casa. Para conseguir produzir minhas obras, eu acordo muito cedo e pinto por umas 4 horas antes de sair para o trabalho. Ao chegar, costumo ficar até a 1h da manhã pintando.

A dimensão dos meus trabalhos depende muito da minha inspiração. Ter ficado 42 dias pontilhando um trabalho de 2,00 x 1,40 metros foi uma experiência doida,  mas quase involuntária. A ideia surgiu, e a concretizei. Ultimamente, tenho trabalhado em tamanhos menores, mas, ainda assim, bastante assustadores por se tratar de pontilhismo.

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6 – Conta pra gente como é o seu processo criativo. Onde busca inspirações para seus trabalhos?

Will: Não sei se todo artista é como eu, mas me sinto um esquizofrênico ao falar de arte. Minha cabeça está sempre dividida entre a vida real e a arte. O tempo todo trefegam imagens, cores, traços e pontos intensamente pela minha cabeça.

Não tenho hora certa pra me inspirar e trabalhar, qualquer momento é a hora ideal para produzir algo. Se você for à minha casa e procurar algum rascunho não vai encontrar. Tudo o que eu rabisco ou projeto vira arte, dificilmente algo fica parado ou não flui. Acho que a minha falta de tempo me faz acumular tanta energia que, quando sento pra trabalhar, tenho sempre 100% de aproveitamento.

 

7 – Tem projetos novos em vista? Alguma exposição em mente?

Will: Sim. Agora em maio vou realizar uma exposição na Alemanha. Devo isso graças ao esforço de dois amigos que pegaram meus trabalhos e conseguiram essa oportunidade. Estou muito feliz!

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8 – Existe uma mensagem por trás das suas obras? 

Will: Existe. Entretanto, muitas delas eu não consigo explicar. O processo artístico é, invariavelmente, mediúnico pra mim. Fico obcecado e, muitas vezes, pinto coisas que só vou descobrir o que são realmente durante a pintura.

Uma vez pintei uma criatura que há dias estava no meu imaginário. Achei que fosse uma criação surreal minha, até que um amigo me mostrou uma foto e eu quase desmaiei.  Não me preocupo em passar uma mensagem diretamente quando pinto. Gosto que cada um faça sua própria viagem na minha criação e adoro saber para onde as pessoas vão ou o que imaginam.

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9 – E a arte no Brasil? O que você acha do momento que estamos vivendo em relação a arte?

Will: Queria não ter que responder isso. No segundo semestre de 2014, enviei por volta de 20 propostas de editais e ofereci meu trabalho para uns 50 espaços culturais. Obtive resposta apenas de 4 desses lugares e ainda não obtive êxito nesta procura.

Então, dois lugares na Alemanha querem expor meu trabalho… Complicado né?  Meu Instagram tem mais de 10.000 seguidores e acredito que apenas umas 2.000 pessoas sejam brasileiras. É muito triste ver meu trabalho (e o de outros amigos artistas) não ser valorizado na nossa terra natal. Infelizmente, não vejo um horizonte pra nossa geração de artistas, pois não se ensina cultura para a grande massa. Logo, como o brasileiro em geral pode valorizar o que não conhece?

Além disso, artista que vem da classe mais baixa tem menos acesso por que ainda se impera a política do “melhor ter contatos do que ter talento”. Isso muito triste!

 

10 – Além do pontilhismo, há outras técnicas que você vem trabalhando ou pensa em trabalhar? Vimos alguns trabalhos seus que misturam aquarela e outras técnicas para dar volume às obras.  

Will: Tenho focado muito no pontilhismo. É o que quero mostrar nesse ano, mas, como já falei, minha inspiração tem vontade própria. A qualquer momento posso ter um insight e utilizar outra técnica.

Gosto deste “descontrole” e de não saber como será meu próximo trabalho. Eu fico aguardando ele se apresentar na minha mente para que eu possa torná-lo real. É a arte que vem até mim, sou apenas um anfitrião.

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11 – Fale sobre alguma experiência que a sua arte lhe proporcionou.    

Will: Gosto muito de lembrar do fato de ter ganhado um prêmio internacional de ilustração.

Foi uma sucessão de acontecimentos que me levaram ao prêmio. Não conhecia a marca Staedtler, quando ganhei algumas canetas de uns amigos muito queridos em 2013. Comecei a usar hashtags no Instagram, a marca viu meus trabalhos e me convidou pra ser o único brasileiro a competir com o resto do mundo em um concurso pra ilustrar uma embalagem deles.

Quando recebi o material, o prazo já havia expirado por conta de uma devolução dos nossos correios, mas mesmo assim me deram uma semana pra criar. Como eu não teria tempo hábil para enviar a ilustração, tive que digitalizar a obra pra que pudesse ser enviada pra Alemanha.

Fiquei entre os três melhores, de acordo com a avaliação da empresa. Então, fizeram uma votação na página do Instagram, na qual tive uma quantidade assustadora de votos a mais que os outros. Após a vitória, recebi várias embalagens das canetas que carregavam a minha ilustração. Elas são o meu troféu. Eu me sinto muito orgulhoso deste trabalho e, claro, muito grato a todos os amigos que me ajudaram para que isso acontecesse.

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Espero que tenham gostado da entrevista e que tenham curtido o trabalho incrível que o Will Barcellos vem desenvolvendo.

Pra conhecer melhor e ver mais detalhes sobre as obras, deem uma olhada na fanpage dele no Facebook e no Instagram.

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